Tradicionalmente tratadas como condições clínicas distintas, as doenças cardiovasculares (DCV) e o câncer compartilham, na verdade, múltiplas conexões fisiopatológicas e fatores de risco em comum. A literatura científica mais recente tem apontado um dado importante: pacientes com DCV apresentam maior risco de desenvolver diferentes tipos de câncer, como colorretal, mama, pulmão e próstata, independentemente de outros fatores associados.

Essa associação não se limita à coincidência de comportamentos de risco como tabagismo, sedentarismo e alimentação inadequada. Mecanismos biológicos comuns, como inflamação crônica, estresse oxidativo e disfunção endotelial, podem atuar de maneira sinérgica, contribuindo tanto para a progressão da doença cardiovascular quanto para a carcinogênese.
A seguir, abordamos as principais evidências que sustentam essa relação e discutimos como esse conhecimento pode transformar a prática clínica por meio da prevenção integrada e da vigilância oncológica ampliada. Continue a leitura para saber mais!
Entenda a relação entre risco de câncer e doença cardiovascular
Um dos estudos mais abrangentes sobre o tema, publicado em 2023, revela que pacientes com DCV têm 14% mais chances de desenvolver câncer ao longo do tempo, mesmo quando se considera o risco competitivo de morte por outras causas. A consistência desses achados foi confirmada na meta-análise, com aumento de 13% no risco relativo de câncer entre indivíduos com doenças cardiovasculares diagnosticadas.
Esse aumento do risco não se restringe a um subtipo específico de DCV ou de câncer. Pelo contrário: observou-se associação significativa em diferentes perfis clínicos e para diversos tipos tumorais, sugerindo um elo biológico entre os processos de inflamação sistêmica e transformação celular maligna.
Indivíduos mais jovens são os mais afetados
O risco foi ainda mais evidente em pessoas com menos de 65 anos, o que reforça a hipótese de que o impacto da DCV sobre a carcinogênese pode ser direto e não meramente um reflexo do envelhecimento ou da presença de comorbidades. Para essa faixa etária, os achados apontam para a necessidade urgente de estratégias de vigilância oncológica específicas e adaptadas ao risco cardiovascular.
Desigualdades raciais e sociais aumentam a vulnerabilidade
A incidência e a mortalidade por câncer também são influenciadas por marcadores sociais e raciais. Estudos populacionais nos Estados Unidos demonstram que indivíduos negros, indígenas norte-americanos e ilhéus do Pacífico enfrentam os maiores índices de mortalidade por diferentes tipos de câncer, incluindo próstata, fígado, mama, pulmão e estômago. Esse padrão permanece mesmo quando controlado por variáveis clínicas, revelando o peso dos determinantes sociais da saúde.
A pobreza persistente, a baixa escolaridade, a insegurança alimentar e o acesso limitado aos serviços de saúde são fatores que amplificam não apenas o risco de DCV, mas também dificultam o diagnóstico precoce e o tratamento adequado do câncer. Nessas populações, o enfrentamento do risco oncológico exige intervenções que vão além da clínica, incluindo políticas públicas intersetoriais e abordagens que levem em consideração o racismo estrutural.
Histórico familiar como um marcador clínico subestimado
A presença de histórico familiar de câncer é reconhecida como um importante modificador de risco. Parentes de primeiro grau com diagnóstico oncológico aumentam significativamente a probabilidade de desenvolvimento da mesma neoplasia e, em alguns casos, de tumores distintos. Esse risco é ainda mais alto em famílias com múltiplos casos ou quando o diagnóstico ocorre em idade precoce.
Para o câncer colorretal, por exemplo, ter um parente de primeiro grau acometido pode duplicar ou triplicar o risco, mesmo quando se trata de adenomas avançados. Já no caso do câncer de mama, a presença de histórico familiar eleva o risco em todas as faixas etárias, inclusive na pós-menopausa, independentemente da densidade mamária. O câncer de próstata também apresenta associação com histórico familiar, inclusive quando há casos prévios de câncer de mama na linhagem paterna.
Prevenção: paradigma para o cuidado clínico
Diante da robustez dos dados, é importante que profissionais de saúde incorporem o rastreamento oncológico como parte da abordagem de pacientes com DCV. A prevenção cruzada, que considera a relação entre condições cardiovasculares e neoplásicas, é uma estratégia cada vez mais necessária em um contexto de aumento da expectativa de vida e complexidade clínica.
A anamnese detalhada, incluindo histórico familiar, fatores sociodemográficos e comportamentais, deve orientar a solicitação de exames preventivos como mamografia, colonoscopia e PSA. Além disso, pacientes com DCV devem ser orientados sobre os sinais de alerta para câncer e encorajados a manter hábitos de vida que reduzam o risco para ambas as condições.
Essa visão amplia as possibilidades de diagnóstico precoce e melhora os desfechos clínicos, além de promover uma atenção mais individualizada e preventiva.
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Referências:
Shu, Chi et al. “Cancer risk subsequent to cardiovascular disease: a prospective population-based study and meta-analysis.” BMC medicine vol. 23,1 192. 31 Mar. 2025, doi:10.1186/s12916-025-04013-1
Gudenkauf, Franciska J, and Aaron P Thrift. “Preventable causes of cancer in Texas by race/ethnicity: Major modifiable risk factors in the population.” PloS one vol. 17,10 e0274905. 13 Oct. 2022, doi:10.1371/journal.pone.0274905
Ji, Chen et al. “Family history and genetic risk score combined to guide cancer risk stratification: A prospective cohort study.” International journal of cancer vol. 156,3 (2025): 505-517. doi:10.1002/ijc.35187